Ocupa Ouvidor, 63.

 

Por Gustavo, Claudio, José, Carol e Wesley

A ocupação cultural localizada no centro de São Paulo, mais especificamente na rua do Ouvidor de número 63 leva os visitantes e os transeuntes à uma reflexão no mínimo interessante. Passando pela fachada colorida, cheia de pinturas e grafites, atravessando uma porta de ferro, em pleno cenário caótico paulistano, as pessoas que estão do lado de lá acabam recebendo seus visitantes com explicações claras e com uma liberdade total para circular, fotografar e vivenciar aquilo que não é só mais um prédio entre os mais de 5.000 em SP.

Há 3 ano um grupo, ou quem sabe um elenco, de artistas dos mais variados, incluindo músicos, circenses, pintores, escritores e outros mais, que fazem parte de um movimento originado no Brasil, vieram de vários lugares do país e da América do Sul e ocuparam o prédio esquecido na rua do Ouvidor, ao lado da estação Anhangabaú, no intuito de fazê-lo de moradia e local de trabalho, de produção e exposição de arte, e iniciaram um processo de reformas para torná-lo habitável. Já começando com uma organização horizontal, um esforço coletivo impressionante com um toque de arte, conseguiram transformar um descaso do Estado em algo como um ser vivo, com seu próprio organismo e identidade.

Vista do terraço do prédio

 

Os 13 andares de puro estímulo visual e sensorial, já abrigam mais de 100 moradores e 10 crianças, exibindo em seu próprio teatro, peças e apresentações artísticas, de todo tipo, periodicamente, organizando oficinas de técnicas artísticas, possuem até mesmo hortas em pleno andamento, sem sequer mencionar uma das vistas mais bonitas do centro. Assembleias acontecem durante a semana toda para fazer decisões sobre tudo no espaço, de forma organizada e bem dividida, os moradores conseguem não só manter, como dar vida e emoção ao lugar. Conhecemos e conversamos com pessoas de todos os ramos da arte, cada um com projetos mais variados e interessantes que o outro, ouvimos algumas histórias impressionantes, e nessa narrativa, segue uma abordagem a respeito dessa ocupação.

 

Espaço teatral no subsolo.

 

Apesar de todo o charme e história que possa estar envolvido no entorno do edifício, a realidade é bem mais cinza. A região é decadente, com prédios que vão sendo desocupados aos poucos e não despertam o interesse de novos inquilinos comerciais. Na rua de trás, ou seja, no fundo do prédio da Ocupa, a Rua Riachuelo abriga um órgão público que atende moradores de rua e a sede da Educafro, movimento ligado a educação, que visa, dentre outras coisas, incluir pessoas negras ao ensino superior, nas universidades públicas e privadas.

Estas características por si só, já mostram que a vocação da região, no momento, é muito mais social e humana do que econômica.

Obra de xilogragravura produzida na ocupação.

 

A realidade da Rua do Ouvidor é diferente, onde os prédios se encontram em estado de quase ruína, num terreno acidentado, apesar do status de rua, lembra mais uma viela devido a sua pequena largura, que permite, caso não fosse fechada para automóveis, a circulação de apenas um carro por vez. Tais características poderiam ser aspectos positivos para uma Ocupação, com os dogmas da Ouvidor 63.

 

Telas de ex-ocupantes expostas no 4° andar.

 

Num mundo real, talvez este seja um dos maiores desafios das sociedades pós-modernas, já que o modelo anterior e que é vivido no mundo capitalista a fora, não compareceu às vontades da sociedade. Vivemos em meio a competições e vaidades que nos destroem física e psicologicamente, a coragem daquelas meninas e meninos deveria servir de exemplo para todos nós, como opção a verdades seculares, como a ideia de que só é possível fazer política em partidos políticos e através de instituições tradicionais que concentram poderes.

 

 

Na Ouvidor 63 os problemas têm de ser resolvidos pela comuna e não por representantes que não abrigam o espaço, que sequer estão próximos ou que vivam em palácios longe da realidade. Apesar de todos os detalhes, o prédio que pertence ao CDHU – Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano desde 2007 e que está desocupado desde 2005, foi posto em leilão pelo Estado. Em uma região, como já dito, decadente e antiga da cidade, com vocação para o social, dificilmente encontrará compradores interessados em investir no imóvel e na região. O Estado não leva em conta toda a contribuição humana, as possibilidades de trabalho e desenvolvimento artístico que a Ocupa proporciona, mesmo com toda a contrapartida que o espaço dá à cidade, e mesmo assim, o poder público quer vender o prédio, desabrigar a Ocupação aos artistas, a Galeria de Arte popular, as obras, os seres humanos.

Mensagem de grupos LGBT

 

Numa cidade onde Galerias de Arte encontram-se em bairros nobres e inacessíveis aos trabalhadores, temos a sensação que arte não é para o acesso de todos. Iniciativas como a Ouvidor proporcionam aos que estão próximos a ela, questionamentos, senso crítico, consciência estética e isso tudo pode ser perigoso para um Estado que se mostra cada vez mais conservador, e basta olhar as atitudes de perseguição do atual prefeito às manifestações artísticas urbanas.

 

Caracterização das escadas

 

Esta matéria que vem a princípio apresentar o Ouvidor 63, deverá trazer em outros capítulos as histórias da ocupação. Diante de tantas histórias a serem ouvidas e relatos para serem salvos, a arte do Ouvidor deverá vir à tona no próximo episódio.

 

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